
Numa altura em que o leste da República Democrática do Congo vive uma escalada preocupante de violência, o Presidente angolano João Lourenço voltou a destacar, este sábado, a importância da União Africana como principal motor para a resolução de conflitos no continente. O apelo foi feito durante a reunião da Mesa da Conferência de Chefes de Estado e de Governo da UA, convocada por Angola.
Num discurso dirigido aos seus homólogos africanos e representantes regionais, Lourenço apresentou uma panorâmica sobre a deterioração da situação entre a RDC e o Ruanda, destacando os esforços já desenvolvidos sob o Processo de Luanda, mas também os entraves enfrentados.
Entre os pontos mais críticos, o chefe de Estado angolano lamentou o fracasso da cimeira prevista para dezembro de 2024, que deveria ter resultado na assinatura de um acordo de paz. A ausência do Presidente ruandês inviabilizou o encontro, numa altura em que se discutiam temas essenciais como a retirada de tropas estrangeiras e a neutralização de grupos armados.
Desde então, os confrontos intensificaram-se, levando o grupo armado M23 a assumir o controlo de cidades estratégicas como Goma e Bukavu. Essa ofensiva forçou a intervenção de organizações regionais como a SADC e a Comunidade da África Oriental, que em fevereiro recomendaram a fusão dos esforços de mediação de Luanda e Nairobi.
Face a este contexto, João Lourenço anunciou a sua retirada do papel de mediador direto, justificando a decisão com as responsabilidades acrescidas enquanto Presidente em exercício da União Africana. Ainda assim, defendeu a urgência em nomear um novo Chefe de Estado africano que assuma o processo de mediação, agora com o suporte formal das organizações regionais e de um painel de cinco facilitadores nomeados recentemente.
Entre esses nomes de peso figuram ex-presidentes de vários países africanos, incluindo Uhuru Kenyatta (Quénia), Olusegun Obasanjo (Nigéria) e Catherine Samba-Panza (República Centro-Africana), num esforço que procura garantir representatividade geográfica, equilíbrio de género e diversidade linguística.
Lourenço sublinhou que, apesar dos avanços já registados, a paz duradoura só será possível com vontade política real de todas as partes envolvidas e com a coordenação unificada da diplomacia africana. No final, reiterou a importância de um cronograma claro para as negociações e a necessidade de reafirmar a liderança da União Africana na resolução dos conflitos que continuam a desafiar o continente.