
Entre as figuras da UNITA que se destacaram pela crítica à decisão está o antigo Vice-Presidente do partido, Ernesto Mulato, que através das redes sociais expressou sua insatisfação com a exclusão de Savimbi. Na sua publicação, Mulato argumentou que “para participar num banquete, tens de sentir que és bem-vindo”. O dirigente da UNITA afirmou ainda que a simbologia do evento e a mera formalidade não são suficientes para criar um bom futuro para Angola, e apelou à honestidade nas relações políticas e ao sentimento de unidade genuína.
Albino Pakisi, filósofo e intelectual, também se mostrou desapontado com a decisão, considerando-a um erro histórico. Pakisi acredita que o reconhecimento de figuras como Savimbi e Holden Roberto, líderes fundamentais na luta pela independência de Angola, deveria ser uma prioridade, sem desconsideração pela sua importância nas lutas de resistência ao colonialismo. Para Pakisi, é uma honra que dirigentes como Ernesto Mulato se posicionem contra a exclusão de figuras centrais da história do país, pois para ele, “não faz sentido que aquele que levou os outros à luta, e que foi uma figura chave, não seja condecorado”.
O sociólogo Samora Neves também comentou a situação, sugerindo que a recusa de alguns dirigentes da UNITA em participar da cerimónia possa ser uma forma de partidarizar o evento e diminuir a sua importância. Neves acredita que a recusa de participação visa, de alguma forma, colocar em causa o simbolismo da Paz e da Reconciliação Nacional e, com isso, reduzir o impacto da data histórica para Angola.
O debate sobre as condecorações e a possível ausência de figuras da UNITA levanta questões sobre a reconciliação nacional e a unidade no processo pós-independência. Albino Pakisi apelou para que as partes envolvidas adotem uma postura de patriotismo profundo, lembrando que o processo de construção de um país livre e soberano deve ser baseado em uma visão coletiva e inclusiva. Pakisi ainda acredita que, com o tempo, a situação será revista, já que as festividades ainda oferecem oportunidade para o reconhecimento de outros.
O jurista e também comentarista político que se manifestou sobre o tema chamou a atenção para a necessidade de um evento inclusivo e sem divisões, com o objetivo de unir as várias personalidades e entidades que contribuíram para o processo histórico de Angola. Para ele, a divisão política não pode impedir a celebração das vitórias do país.
As condecorações que acontecem hoje, 4 de Abril, no Dia da Paz e da Reconciliação Nacional, marcam o início de uma série de homenagens às personalidades e entidades que tiveram um papel significativo na luta pela independência de Angola. Ao todo, 247 individualidades foram anunciadas para receber as medalhas, um gesto de reconhecimento por suas contribuições ao país. No entanto, a exclusão de figuras chave como Jonas Savimbi e Holden Roberto pode criar um ambiente de desconfiança e divisão política, que colocam em risco a unidade e a paz tão desejadas pelas autoridades.
A cerimônia de hoje é, portanto, não apenas uma celebração da história de Angola, mas também um reflexo das tensões políticas atuais, que poderão ter um impacto significativo nas eleições de 2027 e no processo de reconciliação entre as diferentes correntes políticas do país. A forma como a situação será gerida pode definir o rumo da política angolana nas próximas décadas.