
A entrada da rapper e ativista Eva Rap Diva nas listas do Partido Socialista português para as próximas eleições legislativas está a provocar um intenso debate em duas margens do Atlântico. A sua candidatura levantou questões sobre identidade, representatividade e o lugar de vozes africanas nos espaços políticos europeus.
Figura conhecida tanto em Angola como em Portugal pelo seu ativismo social e artístico, Eva foi recentemente anunciada como candidata pelo PS, num gesto que dividiu opiniões mas também despertou reflexões mais profundas sobre cidadania, pertença e identidade múltipla.
Para a empresária e ativista social Myriam Taylor, a presença de Eva na cena política é tudo menos contraditória. Num artigo de opinião, Myriam destacou que a artista é simultaneamente “portuguesa e angolana”, e que essa vivência bicultural deve ser entendida como um todo e não como metades em conflito. “É precisamente essa pluralidade que parece desconfortar muitos, tanto em Portugal como em Angola”, afirmou.
Do lado da comunicação social, o jornalista angolano Victor Hugo Mendes, atualmente radicado em Portugal e ao serviço da RTP, reconheceu ter sido surpreendido com a candidatura de Eva, por não lhe ser conhecida uma ligação prévia à política partidária. Ainda assim, acredita que a presença da rapper pode abrir portas importantes para outras jovens angolanas.
“Estamos perante uma figura com forte intervenção cívica, cuja voz se ergue contra injustiças sociais e raciais. A sua entrada na política poderá servir de estímulo para que mais mulheres em Angola também se envolvam na construção de alternativas políticas”, afirmou Victor Hugo Mendes, fazendo referência a outras figuras femininas, como Ossanda Líber — política luso-angolana que lidera o partido Nova Direita e que concorreu à Câmara Municipal de Lisboa em 2021.
A jornalista e jurista Bela Malaquias, fundadora do Partido Humanista de Angola, também é lembrada como exemplo de como mulheres com forte expressão social podem canalizar essa influência para a esfera política, algo que, segundo Mendes, Eva pode igualmente conseguir.
Do ponto de vista político-estratégico, o jurista português Rui Verde vê a candidatura como uma aposta calculada. “Eva RapDiva tem um público jovem, ativo e atento. O Partido Socialista quer captar o eleitorado luso-angolano, que ultrapassa os 100 mil eleitores em Portugal. E ela tem potencial de mobilização nesse campo”, sublinhou.
Ainda assim, a artista já enfrenta críticas e episódios de xenofobia, sinal claro de que o caminho na política será tão desafiante quanto o palco onde começou. Mas, para muitos, é justamente essa resiliência que pode fazer de Eva RapDiva uma referência de mudança — dentro e fora das urnas.