
O fim das emissões da histórica rádio Voz da América (VOA) está a ser interpretado como uma oportunidade estratégica para a China ampliar o seu domínio informativo no continente africano. A avaliação é de analistas internacionais que vêm acompanhando de perto o avanço da presença mediática de Pequim em países em desenvolvimento.
Para Dani Madrid-Morales, investigador da Universidade de Sheffield e especialista em comunicação política global, o encerramento da VOA “é uma excelente notícia para os interesses chineses”, sobretudo porque retira do jogo um dos poucos meios internacionais com tradição em oferecer espaço plural à opinião pública africana.
“A VOA era amplamente reconhecida pela sua linha editorial independente, dando voz não só aos governos, mas também às forças da oposição, o que contrasta com a abordagem dos órgãos estatais chineses, como a CGTN, que geralmente refletem apenas a narrativa oficial dos países onde operam”, afirmou Madrid-Morales.
A decisão de suspender as atividades da rádio, anunciada pela administração de Donald Trump, surge num momento em que a China reforça a sua presença mediática no continente através de investimentos robustos em televisão, imprensa e redes sociais. O jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista Chinês, celebrou o encerramento da emissora norte-americana com sarcasmo, classificando-o como “o fim do chamado farol da liberdade”.
Com transmissões em 48 línguas, incluindo o português, a VOA tinha relevância especial nos países africanos lusófonos, como Angola e Moçambique. A sua saída do ar poderá deixar um vazio informativo que órgãos chineses esperam preencher.
Segundo o investigador, a China vem adotando uma postura mais ativa na disputa pelo espaço mediático africano, investindo em infraestrutura, formação de jornalistas e acordos com meios de comunicação locais. A CGTN, por exemplo, opera a partir de um centro regional em Nairobi, no Quénia, enquanto a agência Xinhua já conta com cerca de 30 escritórios espalhados por todo o continente.
Além da presença institucional, Pequim utiliza mecanismos de influência indireta, como a celebração de parcerias editoriais, cedência de conteúdos prontos para publicação e financiamento de viagens e estágios para jornalistas africanos. Estes programas, muitas vezes com todas as despesas pagas, incluem formação em território chinês com foco nos valores e interesses da política externa do país asiático.
Madrid-Morales observou ainda uma mudança significativa no comportamento comunicacional da China. “Durante anos, Pequim limitou-se a reagir às críticas, principalmente em matérias como direitos humanos. Agora, adota uma posição ofensiva, questionando abertamente o papel dos Estados Unidos, da França e de outras potências ocidentais em África”, explicou.
Essa transformação começou a ganhar força com os protestos pró-democracia em Hong Kong, ganhou novo impulso com a pandemia de Covid-19 e intensificou-se ainda mais com o conflito na Ucrânia. É o reflexo, segundo o analista, da nova política externa do Presidente Xi Jinping, marcada por um discurso mais assertivo e presença mais visível nos fóruns internacionais.
Apesar do avanço, a influência chinesa nos países lusófonos africanos ainda é limitada. Em Angola, por exemplo, apenas 3% dos inquiridos num estudo recente disseram ter consumido conteúdos da CGTN na semana anterior ao levantamento. A Rádio Internacional da China e a Xinhua são os únicos veículos estatais chineses com produção em língua portuguesa.
O cenário que se desenha agora é de uma arena informativa cada vez mais polarizada, onde a ausência de vozes alternativas pode alterar significativamente a perceção dos cidadãos sobre os seus próprios governos — e sobre o mundo.