
Apesar dos 23 anos de silêncio das armas, Angola continua a enfrentar um dos maiores dilemas do seu período de estabilidade: a exclusão social. Joveth de Sousa, analista político, levanta um alerta incômodo para o país — o de que a paz, embora celebrada, ainda não chegou de forma igualitária a todos os cidadãos.
Em declarações feitas à margem das celebrações do 4 de Abril, data que assinala o fim da guerra civil iniciada em 1975, o especialista destaca que a paz conquistada no papel não tem se refletido na vida concreta dos angolanos. “É doloroso que, mesmo passadas mais de duas décadas, ainda vejamos cidadãos a procurar alimentos no lixo, jovens sem oportunidades e pacientes a morrerem nas portas dos hospitais por falta de assistência”, lamentou.
Para Joveth de Sousa, é urgente transformar a paz militar numa paz social. “Não basta calar as armas, é preciso garantir educação, saúde, emprego, dignidade. A paz tem de chegar à mesa e ao coração das pessoas”, reforça. Ele defende que só haverá verdadeira reconciliação quando se ultrapassarem as barreiras político-partidárias e se assegurar uma distribuição mais justa dos frutos da independência.
O analista faz ainda uma distinção entre o que chama de “paz positiva” — o cessar das hostilidades — e a “paz negativa”, marcada pelo alto custo de vida, pobreza extrema e ausência de serviços essenciais. “A reconciliação nacional exige mais do que memória: exige justiça social”, afirmou.
As comemorações oficiais do 4 de Abril decorreram este ano no município do Luau, província do Moxico, com um acto solene presidido pela Vice-Presidente da República, Esperança da Costa. A cerimónia incluiu a deposição de uma coroa de flores no Túmulo do Soldado Desconhecido, em homenagem aos que perderam a vida na longa guerra civil que dividiu o país durante 27 anos.
Sob o lema “Angola 50 Anos: Preservar e valorizar as conquistas alcançadas, construindo um futuro melhor”, o evento reuniu representantes do governo, partidos políticos como o MPLA, UNITA e PRS, bem como membros das Forças Armadas e da Polícia Nacional.
Ainda assim, para muitos analistas, a reflexão deve ir além dos rituais. “A paz deve ser celebrada, sim. Mas também deve ser revista, cobrada e melhor distribuída”, concluiu Joveth.